5. INTERNACIONAL 26.9.12

1. MAIS GASOLINA NO INCNCIO
2. MAIS DESIGUAIS

1. MAIS GASOLINA NO INCNCIO
As cenas de fria contra o Ocidente nos pases islmicos so organizadas a qualquer pretexto. As recentes foram em torno de charges e um vdeo ridculo dobre Maom
NATHALIA WATKINS E TATIANA GIANINI

 odioso, condenvel, grotesco e deseducado fazer troa da religio de outras pessoas  e at da prpria. A f se confunde com a mais profunda conscincia que as pessoas tm de si mesmas. Portanto,  natural que as ofensas religiosas sejam percebidas como ataques pessoais. Esse fato da natureza humana, porm, pouco ou nada tem a ver com as encenaes de exasperao e dio ao Ocidente vistas nas ruas de cidades rabes nos ltimos dias. Aquelas pessoas em trajes orientais descabelando-se, queimando bandeiras americanas, uivando e pulando diante das cmeras dos fotgrafos e cinegrafistas (ocidentais, claro) so descritas como islamitas protestando contra ofensas feitas ao profeta Maom, fundador da religio que elas professam. Em parte  isso. Mas elas foram parar ali manipuladas por lderes religiosos e polticos que, incapazes de melhorar as condies de vida das populaes miserveis de seus pases, tm como nica agenda unificadora a manuteno do dio aos Estados Unidos e, mais amplamente, ao Ocidente em constante estado de ebulio. Para isso eles esto sempre em busca de pretextos. Uma charge ridicularizando o profeta publicada por um jornal de circulao restrita ou um vdeo amador que no seria visto por mais do que meia dzia de indigentes culturais foram os ltimos pretextos para os muls atiarem a turba nas ruas rabes. Enquanto esto se manifestando aos berros, as pessoas esquecem o estado miservel e a total falta de esperana no futuro em que so mantidas por seus governantes ineptos.
     O vdeo usado como pretexto para insuflar as massas rabes  uma pea mambembe de catorze minutos intitulada Inocncia dos Muulmanos. Por alguma trapaa ainda de autoria desconhecida, o personagem principal do vdeo, o profeta George, reaparece nas verses exibidas pela televiso estatal do Egito com o nome de Maom. O profeta George-Maom do vdeo  um libidinoso insacivel e muito criativo na satisfao de seu apetite sexual. Logo depois de ser exibido na televiso egpcia, o vdeo com legendas em rabe,  bvio, foi parar na internet. Assim, sua existncia, que passaria despercebida, aps duas trapaas  a transformao de George em Maom e a divulgao pela televiso e internet comeou a ser vendida pelos grupos radicais de muulmanos salafistas, por terroristas da Al Qaeda e por membros da Irmandade Muulmana como mais uma ofensa do Ocidente  f islmica. Uma evidente manipulao de lderes religiosos em pases onde seu objetivo  a implantao ampla e irrestrita de teocracias  moda dos antigos califados. Diz a historiadora americana Judith Rood, da Universidade Biola, na Califrnia: No califado que esses radicais sonham construir em todo o Oriente Mdio, a liberdade de expresso seria inexistente.
     O surto de intolerncia explcita promovido pelos grupos radicais e terroristas repetiu o padro de outra onda de ataques que se seguiu  publicao de charges do profeta Maom pelo jornal dinamarqus Jyllands Posi, em 2006. Passados mais de seis anos daquela encenao, os governos do Ocidente ainda no aprenderam a lidar com as ondas artificiais de indignao. Atacada por uma turba no dia 11 de setembro, aniversrio do ataque terrorista s Torres Gmeas e ao Pentgono, nos Estados Unidos, a desguarnecida Embaixada dos Estados Unidos no Cairo saiu-se com uma vergonhosa rendio  de princpios. Sob o cerco dos radicais, a embaixada divulgou uma nota em que, em vez de condenar a violncia dos militantes, atacou os incgnitos, distantes e tolos autores do vdeo de George-Maom por  vejam s  abuso da liberdade de expresso. Alm de um insulto  inteligncia, a nota da embaixada americana no Cairo  a negao do fundamental princpio de liberdade estabelecido pela Primeira Emenda  Constituio dos Estados Unidos.  um sinal dos tempos que, sob stio, a primeira reao do sitiado seja negar seus valores mais caros.
     Para que Washington reagisse  altura do desafio, foi preciso que terroristas rabes fizessem uma bem-sucedida emboscada ao consulado americano em Bengasi, na Lbia, matando o embaixador Christopher Stevens, um funcionrio e dois seguranas. O que foi vendido ao Ocidente como mais uma manifestao espontnea de islamitas revoltados com insultos a seu profeta tratou-se de uma bem planejada operao de guerrilha. O consulado foi atacado com morteiros e lanadores de granada, ambas armas letais quando operadas por soldados bem treinados como os que atacaram o consulado americano em Bengasi. Absorto em sua campanha  reeleio para o segundo mandato na Casa Branca, Barack Obama demorou a reagir. Na semana passada, finalmente, classificou o ataque ao consulado na Lbia de ato de terrorismo. O terror, como se sabe, tem sua prpria e perversa lgica, ainda mais maligna quando tenta se justificar pela religio. O islamismo tornou-se, hoje, o pretexto mais usado pelos terroristas.
     Por temor de ataques, tambm o governo francs emitiu ordem para fechar diversas de suas embaixadas nas capitais do Oriente Mdio. Paris agiu depois que um pequeno jornal, o Charlie Hebdo, repetiu os dinamarqueses e publicou algumas charges em que o profeta Maom  desenhado em situaes ofensivas  ainda mais para os seguidores de uma religio que considera blasfmia qualquer representao grfica do seu fundador, mesmo que a inteno do artista seja a mais sublime. De positivo na publicao das charges pelo jornal francs  o fato de que o episdio desencadeou uma discusso intelectual e poltica sadia na Europa sobre como lidar com manifestaes culturais que ofendem as religies. Por que razo uma pessoa sem convices religiosas tem de se obrigar a considerar sagrados smbolos que para ela no tm nenhum valor especial?  uma pergunta que comporta mltiplas respostas. Mais fcil de responder  a indagao feita por Grard Biard, redator-chefe do Charlie Hebdo, em reao s ameaas que sofreu por publicar as charges: Quando as religies invadem o espao da poltica, elas devem entender as crticas e as charges como os polticos o fazem? O editor-chefe Stphane Charbonnier, com extrema lucidez, responde que lhe parece bvio que as religies que se confundem com a poltica devem encarar a realidade do mundo da poltica. Disse ele: Maom no  sagrado para mim. Eu vivo sob a lei francesa, no sob a lei do Coro.
     Charbonuier foi direto ao ponto. Cada dia fica mais bvio para os observadores que a manipulao das massas miserveis a pretexto de protestar contra ofensas ao islamismo faz parte da luta de faces que est sendo travada no Oriente Mdio, principalmente nos pases que se livraram de ditaduras longevas, caso do Egito e da Lbia. A estratgia dos radicais para sobrepujar os moderados  colocar nas ruas seus blocos de queimadores de bandeiras americanas, fazer vista grossa e at patrocinar terroristas. Diz o filsofo suo Tariq Ramadan, da Universidade de Oxford: Diversos grupos esto lutando para ser vistos como os legtimos representantes do Isl. Os mais moderados, hoje, no sabem o que fazer.

UMA ESCALADA RADICAL

NAKOULA BASSELEY NAKOULA - O cristo egpcio que vive na Califrnia teria produzido e distribudo um vdeo ridicularizando o Isl. O udio original foi alterado e um dos personagens, George, passou a ser chamado de Maom.
TERRY JONES - O pastor americano, extremista que ganhou notoriedade por queimar em pblico cpias do Coro, exibiu o vdeo de Nakoula em sua igreja na Flrida.
KHALED ABDALLAH - O apresentador do canal egpcio Al Nas mostrou no seu programa do sbado 8 as cenas do vdeo de Nakoula dubladas em rabe. O programa depois foi colocado na internet.
MOHAMED MURSI - Pelo Twitter, a Irmandade Muulmana do Egito incitou os protestos em frente  embaixada americana no Cairo, dia 11. O presidente egpcio, Mursi, membro do grupo, demorou dois dias para se pronunciar contra a invaso.
HASSAN NASRALLAH - Os terroristas do Hezbollah fizeram uma pausa no assassinato rotineiro de civis na Sria para protestar em Beirute, dia 17. O lder Nasrallah pregou a destruio de Israel e dos Estados Unidos.

CORAGEM - Stphane Charbonnier ( esq.), editor do semanrio francs Charlie Hebdo, com exemplar que mostra muulmano e judeu em pardia do filme Os Intocveis. No  para rir, diz a dupla.

SEM INDIGNAO - Jesus Cristo em charge do cartunista Jaguar (acima) e em um episdio da srie americana Family Guy ( esq.) em que ele multiplica sorvetes e infla os seios de uma mulher.
 [imagem de Jesus na cruz] Hoje no Madalena. Estou pregado.

COM REPORTAGEM DE TAMARA FISCH


2. MAIS DESIGUAIS
Vista de longe, a poltica americana parece sempre mais do mesmo. Mas republicanos e democratas nunca foram to distantes entre si como agora.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     A palavra inglesa mainstream  essencial para entender o debate poltico americano. Literalmente, significa corrente principal, mas  usada com sentido mais amplo. Refere-se s atitudes e ideias consideradas normais, convencionais, aceitveis pela maioria. Na poltica, mainstream designa as propostas e ideias que fazem parte da cultura poltica do pas, que lhe so inerentes e estilo dentro de uma latitude razovel. O que est fora do mainstream  estranho, estrangeiro, extremo, radical, seja  direita ou  esquerda, e, por definio, restrito a uma minoria. Nos Estados Unidos  ofensa dizer que um determinado poltico cultiva ideias fora do mainstream.
     Por isso, aos olhos dos estrangeiros a poltica americana pode parecer um convescote de comadres que divergem apenas sobre a cor do chapu. Engano. Embora a cultura do mainstream garanta equilbrio na poltica americana, expelindo radicalismos, h espao para diferenas substanciais entre democratas e republicanos. A discrdia se d em torno do trip estado, indivduo e mercado (veja o quadro na pg. 90). Os dois principais partidos tm noes opostas sobre o papel do estado, os direitos e deveres dos indivduos e o funcionamento do mercado  e da decorrem divergncias que vm se agigantando cada vez mais nas ltimas dcadas.
     Uma das diferenas centrais acabou iluminada na semana passada com o vazamento de um vdeo em que o candidato republicano  Casa Branca, Mitt Romney, conversa com financiadores de campanha que pagaram 50.000 dlares para participar do evento. O encontro foi em maio passado, mas o vdeo s apareceu agora na revista liberal Mother Jones. Na fala mais polmica, Romney afirma, em resumo, que 47% dos eleitores so parasitas do estado. Com a liberdade de quem pensava estar em uma conversa reservada, Romney disse o que boa parte dos republicanos pensa mas costuma expressar de modo mais polido. Ou seja, o indivduo deve ser responsvel por si mesmo e no ficar dependendo do estado-bab, a rede de proteo social imensa e cara que trata cidados como bebs ou adultos inimputveis.
     
Bem, 47% dos eleitores vo votar no presidente de qualquer jeito, certo? H 47% que esto com ele. So dependentes do governo. Acreditam ser vtimas, acreditam que o governo tem obrigao de cuidar deles, acreditam ter direito  cobertura de sade,  alimentao,  moradia, ao que vocs imaginarem. - Mitt Romney, no vdeo ao lado, em reunio com financiadores na Flrida.
     
     A forma spera como foi embalado o pensamento de Romney abriu um rombo no casco da campanha republicana. Bill Kristol, um dos cardeais do conservadorismo americano, disse que Romney foi estpido e arrogante. Os democratas,  claro, exploraram a frase como se Romney tivesse ofendido metade da populao do pas. Na noite de tera-feira, o presidente Barack Obama apareceu no programa de David Letterman, que, como sempre que recebe um poltico democrata, levantou todas as bolas possveis para o entrevistado. Obama aproveitou: Se voc quer ser presidente, precisa trabalhar para todos e no apenas para alguns.
     Mesmo fora do circo eleitoral, em que adversrios no esto muito preocupados em reproduzir fielmente o pensamento alheio, as diferenas entre republicanos e democratas vo ficando maiores. Uma pesquisa recente do instituto Pew Research Center mostra que, em 1987, seis de cada dez republicanos apoiavam algum tipo de proteo social estatal e viam algum benefcio na atuao dos sindicatos de trabalhadores. Agora, so apenas quatro em cada dez que pensam assim. Em 1992, 86% apoiavam medidas para proteger o meio ambiente. Hoje, so s 47%. A pesquisa mostra que, em um conjunto de 48 temas, o coeficiente de diferena entre republicanos e democratas era de 10 pontos porcentuais em 1987. Hoje, a distncia entre eles quase dobrou (veja a tabela na pg. 88).
     O arcabouo ideolgico dos dois partidos era semelhante na Grande Depresso dos anos 30, durante a II Guerra e no decorrer da dcada de 50. As diferenas comearam a se aprofundar nos anos 60 e 70. O Democrata virou o partido dos direitos civis e o Republicano foi se aproximando cada vez mais da direita religiosa. Um reflexo eleitoral do fosso foi que o pndulo eleitoral passou a oscilar mais violentamente. Em 1964, o democrata Lyndon Johnson ganhou a eleio com 22,6 pontos de vantagem. Em 1972, o republicano Richard Nixon venceu com mais de 23 pontos. As lavadas eleitorais nunca mais se repetiriam com tanta intensidade. As divises se intensificaram, e os dois partidos passaram a radicalizar o discurso em relao a suas discrepncias sobre o trip estado, indivduo e mercado.
     Teoricamente, Romney vai se beneficiar nas urnas do estado precrio da economia americana e sua taxa de desemprego acima dos 8%. O vdeo foi um tropeo. Mas no  o fim da candidatura de Romney. As crescentes diferenas entre republicanos e democratas talvez sejam a expresso de mudanas demogrficas profundas que tendem a favorecer a reeleio de Obama. O crescimento explosivo das minorias, sobretudo dos hispnicos, sempre mais simpticos ao iderio dos democratas, mostra que os republicanos no podem mais vencer uma eleio nacional contando apenas com seu eleitorado de sempre  os trabalhadores brancos. Em 1992, 87% dos eleitores eram brancos. Agora, sero 72%. Uma reduo dramtica. Na medida em que os hispnicos aumentam sua participao relativa na populao, os republicanos vo perdendo terreno mesmo em estados mais avessos aos democratas, como Nevada, Novo Mxico, Colorado, Arizona e at o Texas. Diz Doug Sosnik, estrategista poltico: Os republicanos correm o risco de se tornar minoria permanente. Nesse cenrio, os democratas seriam a melhor traduo do mainstream. 

O FOSSO SE ABRE
Desde 1987, o instituto Pew Research Center avalia a opinio dos americanos sobre 48 temas, como papel do estado, religio, meio ambiente, sindicatos, negcios, segurana nacional, imigrao. Na ltima pesquisa, a diferena de opinio entre republicanos e democratas foi, na mdia, a maior dos ltimos 25 anos (em pontos porcentuais)
DEMOCRATAS  REPUBLICANOS
1987: 10
1988: 9
1990: 10
1994: 11
1997: 9
1999: 11
2002: 11
2003: 14
2007: 14
2009: 16
2012: 18

O X DA QUESTO
A tenso entre estado, indivduo e mercado constitui o eixo central das divergncias entre republicanos e democratas.
O ESTADO. Qual o papel e o tamanho do estado?
DEMOCRATAS: Acreditam no poder do governo.  responsabilidade do estado zelar para que nenhum cidado viva em situao de necessidade.
REPUBLICANOS: Defendem o governo limitado. O papel do estado  garantir que todos tenham liberdade para buscar seus objetivos.

O INDIVDUO
At que ponto cada indivduo  responsvel por si mesmo:
DEMOCRATAS: Acreditam que os indivduos tm direito  assistncia do estado. A rede de proteo social  uma conquista de toda a sociedade.
REPUBLICANOS: Acreditam que cada um  responsvel por si mesmo. A rede de proteo social desestimula a iniciativa individual e tem custo exorbitante.

O MERCADO
Qual o grau de liberdade que o mercado deve desfrutar?
DEMOCRATAS: Preferem um capitalismo regulado. Sem controle, o mercado descamba para a ganncia, e os mais fortes trituram os mais fracos.
REPUBLICANOS: Defendem a liberdade de mercado, fonte do avano econmico e da inovao. O livre mercado  o garantidor da liberdade individual.


